Um sol escaldante, os vidros arregaçados e meu pulmão gritando por ar puro. Vermelho. Sinal vermelho para o enfileirado de carros e para meus pensamentos que há pouco foram interrompidos pela música no rádio. Quase que instantaneamente meus olhos avistaram vindo em minha direção um par de olhos claros envoltos por uma pele que trazia as marcas do tempo. Sua marcha talonante sustentada pela bengala improvisada, talvez tenha sido um mero detalhe naquele episódio que jamais será esquecido. Ao se aproximar do carro com a mão estendida, recebeu um gesto negativo feito pelo balançar de minha cabeça enquanto ainda cantarolava a tal música do rádio. Como em um gesto de compreensão, recebi um sorrido simpático em troca no meu “não”, embora eu até tivesse uma dessas coisas denominadas “moedas” no fundo da bolsa amarela, mas medíocre que fui nem me dei ao trabalho. Voltando-se ao carro ao lado, um Mercedes com um cinqüentão no comando, estendeu a mão novamente, e nesse momento chegou aos meus ouvidos “E você cara, não tem uma moeda pra me dar não?”. Surpresa com o que acabara de ouvir do playboy de meia idade, voltei meu olhar rapidamente para o Sr. Olhos Claros que retirando um punhado de moedas do bolso ofereceu sua mão aberta em direção ao Mercedes dizendo: “Pode pegar, quem pede também pode ajudar!!!” Meus olhos imediatamente se encheram de lágrimas e foi naquele momento que percebi o quanto fui mesquinha. Eu, que não abro mão do peru de natal, dos ovos de páscoa, dos presentes de aniversário. Eu, que por tantas vezes coloquei meu orgulho acima de tudo, que não abri mão das minhas vontades por nada nem por ninguém. Eu, que tenho tudo o que é necessário para uma vida plena e feliz, não tive naquele momento a humildade do nobre senhor.
O sinal ficou verde e só percebi quando o motoqueiro me xingou. Em meio a tantas buzinas, engatei a primeira e sumi na multidão dos carros deixando pra trás a melhor oportunidade de agradecer alguém por uma ótima lição.
Bruna Redoschi.
O sinal ficou verde e só percebi quando o motoqueiro me xingou. Em meio a tantas buzinas, engatei a primeira e sumi na multidão dos carros deixando pra trás a melhor oportunidade de agradecer alguém por uma ótima lição.
Bruna Redoschi.